Queridos Alunos,
na quarta passada o Diogo passou, ao final da apresentação do seminário de seu grupo, um filminho sobre uma experiência científica. E me disse que o colocasse no blog. Estou obedecendo. Êi-lo, abaixo:
Trata-se de uma experiência bem conhecida. Eu já havia lido um relato sobre ela em algum livro de primatologia (provavelmente em algum dos livros do meu primatólogo favorito, o Frans De Waal). Esse é um ramo da ciência realmente fascinante (assim como a arqueologia e a paleontologia - quem aí nunca quis ser cientista que estuda dinossauros quando era criança? - hehehe). Mas o interessante mesmo, para mim, foi o objetivo que a historinha pretendeu atingir: criticar os seguidores da ciência normal - kuhniana - sugerindo que estes fossem como "macaquinhos" (olha aí o preconceito contra os nossos primos na escala da evolução, gente!) que se comportavam acriticamente, arremedando o comportamento dos outros, sem se perguntar sobre sua origem e pertinência.
Como eu gosto de acreditar que toda história tem (pelo menos) dois lados, comecei a pensar no que não foi dito, no reverso da medalha, na face obscura da lua, essas viagens... Aí me lembrei de um outro filme, aliás um primor do gênero "ficção científica do passado" (gênero este que não sei se existe de fato, mas nesse caso acaba de ser criado). É quando a ciência ajuda a reconstruir o passado remoto - ficcionalmente, claro - à luz das melhores teorias que se tem no presente. O filme é já um clássico, apesar de nem ser tão velho assim (é de 1981). E conta uma história com boas chances de ter ocorrido, com maior ou menor grau de verossimilhança, como narrado: a guerra do fogo (ou pelo fogo, ou para ter o controle sobre o fogo, etc.).
Não vou estragar tudo contando o final do filme, podem ficar sossegados. Só vou contar algumas coisas importantes para esse negócio aqui fazer sentido, ok?
No passado (a história se passa há 80.000 anos), quando surgiram os primeiros homens humanos, havia várias tribos de hominídeos coexistindo no mesmo espaço, nosso planetinha Terra, em diferentes estágios de evolução (cultural, tecnológica, etc.). Algumas dessas tribos eram mais bobinhas, ao passo que outras eram mais sabidas. Mas todas já tinham tido algum tipo de contato com o fogo e sabiam da importância de sua posse para a manutenção da vida. Daí o título e o argumento principal do filme: as diversas tribos passavam o tempo inteirinho a digladiar, tentando roubar o fogo umas das outras.
Pois bem, mas o que eu quero dizer é que o quente da história começa quando um moço bobinho, que pertencia a um clã de bobinhos (e que casualmente também é o protagonista do filme), conhece uma moça sabida, oriunda naturalmente de uma tribo de sabidinhos. E esse encontro se deu numa situação bem inusitada: quando ela estava prestes a ser devorada por um terceiro grupo, de bobinhos canibais, que a haviam capturado para o jantar.
Mas a pergunta que não quer calar é a seguinte: o que fazia dos sabidos, sabidos e dos bobinhos, bobinhos? Ah... várias coisas. Mas a principal delas era: os sabidos já dominavam a técnica de fazer fogo! Então não precisavam mais gastar um tempo enorme pensando em como roubar o fogo dos outros quando o deles se extinguia. Sacaram? Aí sobrava muito mais tempo para eles pensarem em outras espertezas, como investigar quais plantas serviam para curar quais doenças, pintar o corpo, construir cabanas, fabricar adornos, instrumentos, desenvolver uma linguagem mais sofisticada, fazer pajelanças, enfim, essas coisinhas que todas as gentes seguem fazendo até hoje... Ou seja, sabidice gera mais sabidice, num círculo virtuoso que se auto-alimenta.
Quando assistirem ao filme, prestem atenção nessa sequência de momentos antológicos:
53:10 - um episódio engraçado faz com que a moça sabida solte uma gargalhada. Eles - os moços bobinhos - apenas observam, intrigados. Não entendem nada, pois não sabiam sorrir.
1:09 - o moço bobinho observa um moço sabido fazer fogo. E chora, de tão maravilhado que fica ao descobrir aquilo possível.
1:13 - o moço neste ponto bobinho-ma-non-troppo ri pela primeira vez, mimetizando o comportamento dos sabidos.
1:15 - o agora-já-sabidinho observa a sabida pintar o corpo. O dele já estava todo pintado - hehehe.
1:16 - em seguida todos os ex-bobinhos caem na gargalhada. Aprenderam...
1:28 - o novo-sabido ensina, com a ajuda da sabida-antiga, todo seu clã bobinho a fazer fogo.
O que quero com isso dizer é que o mimetismo não precisa ser encarado como algo ruim, apenas. Ele é uma característica que nós compartilhamos com os outros primatas e que provavelmente foi responsável pela disseminação, por toda a nossa espécie, de algumas mudanças qualitativas importantes, verdadeiros saltos do ponto de vista evolucionário.
Divirtam-se muito, que esse filme é D+!
Hasta luego,
Brena.
P. S. E o que o David tem a ver com essa conversa toda? Pois é, né? É que mesmo passados todos esses milhares de anos, ainda não consigo acreditar direito no que aconteceu. Começamos pintando parede porque sobrou um tempinho, e no fim deu nisso...











