terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Gato Preto no Quarto Escuro


Queridos Alunos,

leiam isso:

Um matemático, um economista teórico e um econometrista são requisitados para achar um gato preto, que não existe, num quarto escuro e fechado.
O Matemático fica louco tentando achar o gato que não existe e vai parar no hospício.
O Economista Teórico não consegue achar o gato preto, entretanto sai do quarto dizendo orgulhosamente que pode construir um modelo para descrever todos os movimentos do gato com grande acurácia.
O Econometrista passa uma hora dentro do quarto procurando o gato que não existe e depois grita, de dentro do quarto, que pegou o gato pelo pescoço.


Vocês entenderam qual é a graça da última parte? Confesso que ainda não alcancei direito o motivo da gozação. Quererá isso dizer que os econometristas com seus modelos descobrem até mesmo coisas que não existem na realidade? Terá isso algo a ver com aquele negócio de "torturar os dados empíricos até que eles confessem"? Sei lá, só sei mesmo que fiquei muito encafifada com essa piada...

Aí pensei, pensei, pensei... e quando já estava quase sentindo aquele cheirinho característico de miolos torrados, lembrei de um outro gato. Na penúltima postagem em que falamos sobre a indução, A Indução e o Gato de Alice, terminei dizendo assim:  "Então agora sabemos - como parece que até os homens pré-históricos já sabiam -, que a indução não pode ser no momento de criação, de elaboração das teorias, ou seja, no chamado "contexto da descoberta". Mas e na outra ponta? No "contexto da justificação"? Sobre isso preciso pensar mais. Parece que existem mais questões envolvidas do que eu supunha."

E de fato existem. E essas questões se referem a um tal de "risco indutivo" (inductive risk), que em bom portugês foi traduzido como "risco empírico".

Risco empírico ou risco indutivo - como preferirem - é um conceito utilizado para designar o risco de se incorrer em dois tipos de erros estatísticos:

Erro Tipo I (α): A hipótese é verdadeira e o pesquisador a rejeita. Falso Positivo.

Erro Tipo II (β): A hipótese é falsa e o pesquisador a aceita. Falso negativo.

Se houvesse no mundo da ciência algo como uma "hierarquia de erros" (como parece que há), poderíamos dizer que:

Erro Tipo I = Pecado Mortal

Erro Tipo II = Pecadilho Venial

É isso mesmo que vocês estão lendo: na ciência, é muito mais grave rejeitar uma verdade do que aceitar uma falsidade. Deve ser também por isso que o falseacionismo não conseguiu emplacar como uma metodologia prescritiva factível. Para além do fato apontado por Kuhn que os cientistas se apegam às suas teoriazinhas queridas do coração, também existe o problema de se incorrer no erro tipo I e rejeitar uma verdade. Quem garante que qualquer coisa não tenha dado errado no meio do caminho e que por isso os testes empíricos apontaram como falsa uma hipótese que em verdade era verdadeira? E se os cientistas estivessem com uma verdade (mesmo que parcial, como já sabemos) nas mãos e a deixassem escorrer por entre os dedos? Já pensaram que trajédia seria? Pois é...

Já no caso do pecadinho mais light, erro tipo II, a coisa é diferente. Tudo bem que errar não é bom de qualquer maneira, mas aqui o pior que pode acontecer - pensando apenas em termos de ganho de conhecimento, claro - é uma espécie de desvio de curso, um atraso devido à perda de tempo acarretada pelo fato dos cientistas terem seguido uma pista falsa. (Parênteses: eu lembro bem que, quando era criança, precisei usar o diabo de umas botas ortopédicas horrendas na aparência e que também machucavam horrores. Anos a fio de tortura... Outro dia precisei procurar um ortopedista e matei minha curiosidade. Perguntei a ele que fim tinha levado as malditas botas ortopédicas, que simplesmente sumiram do mapa. Trocando em miúdos, ele me respondeu que aquilo havia sido uma pista falsa: chegou-se à conclusão que, na verdade, elas não serviam para nada. Erro tipo II, pensei. Fecha parênteses).

E agora voltando ao gatinho preto que não existia no quarto escuro, mas que mesmo assim foi pego pelo pescoço. Não foi a mesma coisa que aconteceu? Continuo sem entender a graça...

Até,
Brena.

2 comentários:

  1. Oi amiga! falando em econometristas pegando gatos no escuro:
    http://www.amazon.com/How-Lie-Statistics-Darrell-Huff/dp/0393310728

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  2. Hehehe - vou ler. E vc deve ter entendido direitinho a piada, né?

    Bjs.

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